Em junho de 2011, a professora Ginoveva Soares, 58 anos, foi
abordada pela mãe de um aluno quando chegava à escola em que trabalhava,
em São Paulo. Acompanhada de familiares, a mãe passou a agredir a
educadora, quebrando seus óculos e desferindo diversos pontapés. "A
família formou um cordão de isolamento em volta de nós duas, e foi a
irmã dela quem a separou de mim. Isso me abalou extremamente, tive de me
afastar da atividade escolar. Me dá uma revolta muito grande", conta
Ginoveva.
Veja casos de indisciplina nas escolas que causaram polêmica
Se o projeto de lei 3.189, apresentado este ano pelo deputado
federal Junji Abe (PSD-SP) for aprovado, agressões como as sofridas pela
professora Ginoveva receberão punições mais severas. O projeto modifica
os artigos 121,129,146 e 147 do Código Penal Brasileiro, com a
alteração no primeiro artigo qualificando os homicídios cometidos na
unidade escolar ou adjacências e elevando a pena de detenção de seis a
20 anos (homicídio simples) para de 12 a 30 anos (homicídio
qualificado).
As modificações nos artigos 129 e 146 determinam,
respectivamente, o aumento da pena em um terço se o crime ocorrer nas
escolas e seus arredores e a aplicação cumulativa, e em dobro quando o
delito for cometido por mais de três pessoas, com o emprego de armas ou
ocorrido também no ambiente escolar e adjacências. Por fim, a
transformação proposta no artigo 147 prevê o aumento da pena pela metade
se o crime for cometido contra servidores, professores ou colegas de
estabelecimento de ensino.
Segundo o deputado autor do projeto, não existe previsão de
aprovação em curto prazo. "Eu entendi que nós tínhamos que apresentar
alguma solução imediata em defesa dos funcionários responsáveis pelos
estabelecimentos públicos de ensino, mudando alguns artigos do Código
Penal vigente. Infelizmente, não há nenhuma garantia em termos de prazo
para aprovar o projeto, pois o Poder Executivo publica a MP e ela
precisa ser analisada pela Câmara e pelo Senado, tendo que ser aprovada
no prazo de 90 dias", afirma Abe.
Apesar de não haver estatísticas nacionais sobre a violência nas
escolas, alguns sindicatos estaduais já fizeram levantamentos que
ajudam a conhecer melhor a situação dentro do ambiente escolar. Segundo
pesquisa realizada em 2007 pelo Sindicato dos Professores do Ensino
Oficial do Estado de São Paulo (Apoesp) com 684 professores filiados,
93,3% dos casos de violência no ambiente escolar são praticados por
alunos. Os principais fatores que contribuem para a atual situação são a
superlotação das salas de aula e a aprovação automática dos alunos.
Entre os entrevistados, 56% admitiram conhecer casos de pessoas armadas
dentro da escola, e 77% têm conhecimento de consumo de drogas no
ambiente escolar.
Mais diálogo
Para a presidente do Apoesp, Maria Izabel Noronha, o impacto do projeto
será pequeno, já que as brechas nas leis permitem que a punição não seja
efetivamente cumprida. Segundo ela, alternativas que estabeleçam o
diálogo entre alunos e professores devem ser priorizadas.
"Nós temos que fortalecer a gestão democrática, com persuasão
para resolver os conflitos e trabalhando com as diferenças. Medidas como
a do professor mediador, por exemplo, que existe há dois anos, já
encontram profissionais interessados em mediar conflitos, conversar com o
aluno. Não adianta atuar sobre a violência, pois isso gera mais
ostensividade: se você trabalhar com uma forma de mediação, a situação
já terá outro tom. Projetos de lei como esse são importantes pelo debate
que suscitam, mas eu não acredito que só a vontade penal resolva. Na
verdade, ela dá força para os conselhos escolares, que remetem o
problema ocorrido para o órgão colegiado, que por sua vez indica uma
punição", diz Maria Izabel, que atenta para uma estabilização dos
índices de violência dentro do ambiente escolar, apesar dos constantes
casos de agressão dentro das escolas.
Filho de Ginoveva, Sinval Soares, 27 anos, também é professor da
rede pública de ensino. Apesar de não ter sido vítima de violência
dentro de uma sala de aula, o professor de artes já presenciou casos de
pais que agrediram seus filhos em uma reunião escolar, na frente de
professores e da diretora da escola, por exemplo. "Como professor e como
cidadão, eu concordo com o projeto de lei, pois mesmo que a gente
trabalhe com a parte de conscientização, as pessoas precisam ter uma
base de referência. Enquanto não houver essa consciência, imagina quanto
os professores não vão sofrer com a violência", afirma.
Para Ginoveva, apesar de não ser garantia do fim das agressões no
ambiente escolar, o projeto pode ser uma forma de diminuir os casos de
violência nas escolas. "Eu acho que algo deve ser feito, e se essa for
uma forma de intimidar as agressões e aplicar a lei, já é um passo,
mesmo que de formiga, para construir um país diferente", defende.
Mais investimentos
Também vítima de agressão dentro do ambiente escolar, a professora e
diretora do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas
Gerais (Sind-UTE), Idalina Franco de Oliveira, 54 anos, destaca o trauma
pelas agressões. "A aluna era maior de idade, me agrediu física e
verbalmente, também me ameaçando de morte. Eu fiquei seis meses de
licença médica. Mas hoje ela está recuperada, é uma aluna normal,
respeita o ambiente escolar. Ela reconheceu que estava errada e me pediu
desculpas", diz a professora, que acredita que a mudança da situação de
violência no ambiente escolar vai muito além de novas leis punitivas.
Para Idalina, o maior investimento por parte do poder público em
educação é fundamental para a diminuição dos casos de agressão de alunos
e seus familiares a colegas e professores. "A violência é gerada pela
falta de investimento: eu já perdi diversos alunos para o tráfico de
drogas, e isso ocorre porque não há investimento em educação. Os
governantes precisam agir nesse sentido, não adianta apenas punir",
afirma.
Comentários
Postar um comentário