Novo modelo – que ainda é polêmico – está em teste
em 71 colégios públicos. Entre receios e esperanças de sucesso,
professores defendem criação de diferentes perfis de escola
Em busca de reduzir os índices de reprovação e melhorar a
qualidade de ensino oferecida nas escolas do Distrito Federal, a rede
pública da capital decidiu iniciar este ano um novo modelo curricular. A
notícia pegou muitos pais e professores de surpresa, gerou polêmica,
mas, aos poucos, começa a ganhar simpatizantes na cidade.
O modelo que está sendo testado por 71 colégios se baseia
no programa Currículo em Movimento do Ministério da Educação, que
estimula a busca de propostas pedagógicas inovadoras para garantir
qualidade de ensino. O objetivo do novo currículo é articular melhor as
fases do ensino fundamental e do ensino médio, garantindo que ninguém
deixe de aprender, segundo a secretaria de educação do Distrito Federal.
A experiência iniciada em 2005 com as séries iniciais de
alfabetização – o 1º, o 2º e o 3º ano formam um único ciclo, o Bloco
Inicial de Alfabetização (BIA), no qual o aluno não pode ser retido de
uma série para outra – será expandida. O 4º e o 5º ano formariam outro
ciclo e, no futuro, as séries finais também serão divididas em ciclos. O
ensino médio terá as disciplinas divididas em blocos e a organização
das aulas será semestral.
Com isso, os idealizadores do projeto esperam que os
educadores se forcem para encontrar alternativas de aprendizagem para
todo estudante. Para o modelo funcionar de acordo com a proposta, o
professor não pode aprovar o aluno sem que ele tenha aprendido. O aluno
não é retido de uma série para outra dentro de cada ciclo, mas deve
ganhar mais tempo para aprender respeitando seu ritmo.
“A organização pedagógica deve pautar-se numa concepção
que leve em consideração o respeito às faixas etárias, às
características e às necessidades individuais. A crença na reprovação
como fator de pressão para a dedicação aos estudos é um mito. A
progressão continuada das aprendizagens dos estudantes, implícita na
organização escolar em ciclos, demanda acompanhamento sistemático do seu
desempenho por meio de avaliação realizada permanentemente”, afirma, em
nota ao iG
, o governo do DF.
Reinaldo Vicentini Junior, professor de História do
Centro Educacional 2 do Cruzeiro, participou dos debates que construíram
o modelo do ensino médio e acredita que esse é momento importante para o
futuro da rede pública da cidade. “A verdade é que estamos atrasados na
definição de alternativas para o aprendizado. Valorizamos a preparação
para avaliações em larga escala, como o Enem, e tornamos a escola
homogênea demais”, afirma.
O secretário da Educação do DF, Denilson Bento da Costa,
afirmou durante a apresentação do novo modelo, em janeiro, que as
medidas vão reduzir a quantidade de estudantes atrasados nas escolas.
Segundo ele, há cerca de 80 mil alunos com dois ou três anos de
repetência.
Diferentes formatos
Os críticos temem que, na prática, as escolas aprovem os
alunos sem que eles aprendam. Algumas escolas de ensino médio, com medo
de prejudicar a preparação dos estudantes para o vestibular, decidiram
aguardar resultados. Porém, de modo geral, todos reconhecem que é
preciso encontrar alternativas pedagógicas para tornar a escola mais
interessante e aumentar a proficiência dos alunos.
“Há perfis diferentes de alunos e de escolas. O nosso
estudante é focado no vestibular e, nesse primeiro momento, ficamos com
medo de que, dividindo os conteúdos em dois semestres, prejudicássemos
os estudantes. Com educação integral, que ainda não temos, seria mais
fácil equacionar isso”, comenta Ana Lúcia Marques, diretora do Centro de
Ensino Médio Setor Leste, um dos colégios mais reconhecidos pelo bom
desempenho da cidade.
No novo modelo, as disciplinas do ensino médio são
divididas em dois blocos. No primeiro, estão Biologia, Química,
História, Filosofia e Inglês. No segundo, Física, Geografia, Sociologia,
Espanhol e Artes. Os alunos estudam um bloco a cada semestre. Com menos
disciplinas na grade curricular, a carga horária de cada uma aumenta.
Apenas Matemática, Língua Portuguesa e Educação Física continuam anuais.
Para Ana Lúcia, o ideal seria oferecer aulas de reforço
para quem deseja estudar as disciplinas do bloco em que não estão
matriculados naquele semestre no horário contrário ao das aulas
obrigatórias. “É uma proposta inovadora e vai ajudar muito quem não tem
foco no vestibular”, afirma. Para a secretaria, a semestralidade não
interfere no processo de preparação para o vestibular. Em nota, o órgão
diz que o aluno que “aprende de verdade” não esquece conteúdo.
No Centro de Ensino Médio 414 de Samambaia, o novo modelo
está em teste. Remífia Ferraz Tavares, diretora do colégio, conta que
desde 2009 a escola enfrenta um grave problema de falta de professores.
Cada um era responsável por alunos demais. “Com a nova proposta, a carga
horária com cada aluno aumenta e o vínculo com eles também. A cada
semestre, nossos professores cuidam de sete turmas ao mesmo tempo e não
15 como antes”, afirma.
Remífia espera que os professores tenham mais espaço e
tempo para perceber as dificuldades de cada estudante e encontrar formas
de ajuda-los. Ela reconhece que os resultados só serão percebidos no
futuro, mas acredita que a ideia foi amadurecida no colégio. Debates com
alunos e professores foram feitos no ano passado. “Todos sabiam que
algo precisava mudar e acharam interessante experimentar. Vestibular não
é o foco dos nossos alunos, mas estamos pensando em dar algum tipo de
apoio específico para isso no fim do ano”, diz Remífia.
“Pela primeira vez, vejo algo democrático ser construído
na Secretaria de Educação do DF. Só não participou das discussões quem
não quis”, afirma Vicentini. Os debates foram realizados entre setembro e
dezembro do ano passado. Ele lembra que a recuperação tem de ser
contínua e o modelo força avaliações interdisciplinares. “Força o
conhecimento a andar atrelado e o professor, a sair da sua zona de
conforto”, pondera.
Fonte:
Priscilla Borges
- iG Brasília
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