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Professores, pensamento crítico e poder: o medo de questionar ainda silencia a educação?

 

EDITORIAL

Pensar e agir transformam conceitos

Estarei aqui fazendo um breve relato sobre alguns personagens importantes da história mundial e do Brasil. Enquanto leio e escrevo, fico me questionando: qual a relação entre eles e um professor pensador, crítico e comprometido com novas ideias? Espero responder — ou ao menos compreender um pouco mais — ao final deste texto.

Vamos lá.

Nicolau Copérnico

Sua teoria do heliocentrismo, que colocou o Sol como centro do Sistema Solar, contrariou a então dominante teoria geocêntrica, segundo a qual a Terra ocupava o centro do universo. Essa hipótese tornou-se um dos marcos mais importantes da ciência e abriu caminho para a astronomia moderna.

A teoria copernicana foi combatida pela Igreja. O cardeal Roberto Belarmino presidiu o tribunal que proibiu sua divulgação. Galileu Galilei, ao defender essas ideias, também enfrentou perseguições e condenações por desafiar conceitos considerados intocáveis pela autoridade da época.

Sócrates

Os diálogos de Platão retratam Sócrates como um mestre que se recusava a ter discípulos e dedicava-se ao “parto das ideias”, método conhecido como maiêutica. Seu objetivo era levar os cidadãos de Atenas à reflexão crítica.

Acusado de impiedade e de corromper a juventude, Sócrates foi condenado à morte. Mesmo tendo a possibilidade de escapar, preferiu permanecer fiel às suas convicções e aceitou beber cicuta, tornando-se símbolo da defesa do pensamento e da liberdade de expressão.

Jesus

Embora tenha pregado apenas em regiões próximas à Judéia, sua influência ultrapassou séculos e fronteiras, tornando-se uma das figuras centrais da cultura ocidental.

Jesus foi julgado e condenado em um contexto de conflitos políticos e religiosos. Acusado de ameaçar a ordem estabelecida, foi perseguido por questionar estruturas de poder e defender ideias que confrontavam interesses dominantes.

Paulo Freire

Paulo Régis Neves Freire, educador pernambucano, nasceu em Recife em 1921. Alfabetizado pela própria mãe, tornou-se um dos maiores nomes da educação mundial.

Após o golpe militar de 1964, seu método de alfabetização foi considerado uma ameaça pelo regime. Viveu no exílio no Chile e na Suíça, onde continuou produzindo conhecimento. Sua principal obra, Pedagogia do Oprimido, tornou-se referência internacional ao defender uma educação crítica e libertadora.

Luiz Inácio Lula da Silva

Co-fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), Lula destacou-se no movimento sindical brasileiro durante as greves do ABC paulista no final da década de 1970.

Durante o regime militar, foi preso por liderar movimentos grevistas e acusado de incitar desordem coletiva. Sua trajetória demonstra como movimentos populares e reivindicações sociais frequentemente enfrentam resistência das estruturas de poder.

Fernando Henrique Cardoso

Sociólogo e professor da USP, Fernando Henrique Cardoso construiu importante carreira acadêmica, reconhecida internacionalmente.

Durante a ditadura militar, foi afastado da universidade pelo Decreto-Lei 477, conhecido como o “AI-5 das universidades”, e viveu no exílio no Chile e na França. Mesmo diante da repressão, continuou produzindo conhecimento e participando do debate intelectual e político.


Ao pesquisar esses pensadores, percebi que todos — dos mais antigos aos mais recentes — em algum momento esbarraram em estruturas políticas rígidas e resistentes a mudanças. Novas ideias frequentemente ameaçam modelos consolidados de poder, que buscam manter controle sobre a sociedade.

Mesmo conhecendo as consequências, esses personagens não abriram mão de suas convicções. Alguns perderam a liberdade, outros foram exilados e alguns pagaram com a própria vida por defenderem aquilo em que acreditavam.

Felizmente, o tempo também permite revisões históricas. Novas gerações passam a compreender muitos desses pensamentos de maneira diferente, reconhecendo sua importância para a transformação social.

Por que estou escrevendo sobre isso?

Longe de qualquer comparação com esses personagens históricos, acredito que nós, professores, pesquisadores e formadores de opinião, precisamos ter convicção daquilo que ensinamos e coragem para expor nossas ideias de forma crítica e responsável.

Recentemente, durante uma reunião entre professores e representantes sindicais, ouvi argumentos que tentavam justificar os baixos salários da categoria comparando os custos de cursos de Pedagogia e Medicina, como se o valor da mensalidade fosse garantia automática de qualidade profissional.

Se fosse assim, não existiriam filas no sistema público de saúde, nem problemas causados por falhas de gestão pública. Profissionais qualificados — ou não — existem em todas as áreas, independentemente do custo de sua formação.

Também foi dito que professores “não têm o hábito da leitura”. Essa afirmação desconsidera que a atividade docente exige estudo constante, pesquisa e atualização permanente.

Muitas vezes, a responsabilidade pelos problemas da educação é colocada exclusivamente sobre os professores, enquanto questões estruturais e decisões políticas são ignoradas. Parte da sociedade acaba acreditando nessa narrativa, impulsionada por discursos reproduzidos pelos meios de comunicação e por grupos interessados em manter uma população menos crítica e mais facilmente manipulável.

Voltando ao questionamento

Tenho certeza de que a maioria dos professores sabe o que há de errado na educação.

Então por que muitos ainda não lutam por aquilo em que acreditam?

Será o medo das consequências enfrentadas, ao longo da história, por aqueles que ousaram questionar o poder e defender novas ideias?

Ainda não sei.


Autor: Prof. Neemias Alves Pereira

Comentários

  1. O silêncio é o pior dos aditivos dos oprimidos para os opressores

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